ARTIGO, 2025
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL / DESIGN

Critérios da Artificialidade - P.2
Natureza da Coisa Inventada


Vincent van Gogh. Doze girassóis numa jarra, 1888



Esta é a segunda parte do artigo sobre artificialidade. No ensaio anterior, ao observar a produção de imagens por inteligência artificial, chegamos a uma questão que parece ultrapassar a produção de uma resposta visual: afinal, o que determina a artificialidade?

A pergunta talvez seja mais complexa do que distinguir entre aquilo que é natural e o que é produzido pelo homem. Afinal, a maior parte do mundo que habitamos já é resultado de alguma forma de intervenção humana. Objetos, sistemas, imagens, edifícios, alimentos, cidades, relações. Tudo parece atravessado por nossa capacidade de transformar a matéria e reorganizar o tempo. Talvez a oposição entre natural e artificial, que por tanto tempo pareceu suficiente para organizar nossa percepção do mundo, precise ser revista. Não para eliminar a diferença entre os dois, mas para compreender que a artificialidade pode estar menos na origem das coisas e mais na maneira como elas passam a existir.




ar·ti·fi·ci·al — adjetivo de dois gêneros. artificialis.

1 ︎︎︎ Produzido por arte ou indústria do homem e não por causas naturais. 2 ︎︎︎ Produzido ou efetuado pela habilidade do homem para imitar a natureza. 3 ︎︎︎ Produzido especialmente por processos químicos para assemelhar-se a determinada matéria-prima; sintético. 4 ︎︎︎ Que imita um objeto natural. 5 ︎︎︎ Efetuado por meios que não são os naturalmente usados. 6 ︎︎︎Que não é natural; afetado, fingido, postiço, sofisticado. 7 ︎︎︎ Dissimulado, fingido. 8 ︎︎︎ Postiço. 9 ︎︎︎Factício.





Víctor Arce. CD-ROM Datadreams, 2024




1. PERCEPÇÕES INICIAIS


Para compreender como essa percepção a respeito da artificialidade pode ser muito mais ampla do que aquilo que identificamos em um primeiro momento, vale deslocar o conceito de seu uso mais imediato e observar como ele aparece em diferentes campos do pensamento, não apenas como aquilo que é produzido pelo ser humano, mas como aquilo que resulta de processos de construção, mediação, organização e atribuição de sentido.

De forma mais ampla, os estudos de Hannah Arendt (filósofa política alemã, 1906 - 1975) estão muito próximos de algo que entendemos como porto de partida: o artificial é o mundo construído pelo homem. Em The Human Condition, Arendt usa explicitamente a expressão “artificial world of things” - mundo artificial das coisas. O trabalho humano produz um mundo de coisas que se diferencia do ambiente natural e que, idealmente, permanece depois da vida de quem o fabricou. Ela é quase uma condição humana de construção de mundo. O artificial é aquilo que constitui uma segunda camada de mundo sobre a natureza. Para ela Work provides an ‘artificial’ world of things, distinctly different from all natural surroundings - O trabalho proporciona um mundo ‘artificial’ de coisas, nitidamente distinto de todo o ambiente natural.





A equação da imagem no seio humano: além do aspecto emocional, podemos pensar em parâmetros como cultura, religião, realidade econômica, contexto histórico e político.


Chuqiao Liu. Jianghu, 2022






PRIMEIRO NÍVEL ︎︎︎ REALIDADE REPRESENTATIVA


A tela como tecido frágil. A tela como transgressível. A destruição da tela é a única forma de resistência que resta, por mais vaziamente simbólica que seja. O famoso anúncio da Apple, em 1984, com a garota balançando o martelo. Dezenas de estrelas do rock infelizes, seguindo Elvis, com suas armas disparando em suas telas. Michael Rock



O nível representativo é o mais elementar, mas não necessariamente o mais simples. Neste primeiro nível, o girassol deve estar dentro do espectro do que enxergamos no mundo. A linguagem estética deve ser capaz de dar forma a imagem fotográfica, indistinguível daquilo que entendemos por realidade. Este nível encontra uma particularidade: o prompt trava uma luta contra sua própria artificialidade, a qual será capaz de denunciar sua representatividade e simulação, caso falhe.

Dentro de um sistema de audiência (aqui, ativa ou passiva), a representação será submetida a parâmetros de fidelidade, credibilidade e verossimilhança. Os sintomas de sua artificialidade podem colocar esta imagem entre este e os próximos níveis - ou simplesmente arruinar a experiência. Avaliamos e validamos assim o girassol pelo tempo de exposição para este novo sol: os nossos olhos que repousam sobre as telas.


Gustav Klimt. Farm Garden with Sunflowers, 1913 







SEGUNDO NÍVEL ︎︎︎ ABSTRAÇÃO FIGURATIVA


Eu quis fazer um quadro que assustasse o Oswald, uma coisa que ele não esperava. O Abaporu era uma figura monstruosa. Oswald ficou assustadíssimo e perguntou: Mas o que é isso? Que coisa extraordinária! Ele telefonou para o Raul Bopp: Venha imediatamente aqui, que é para você ver uma coisa! Raul Bopp foi lá no meu ateliê, na rua Barão de Piracicaba, assustou-se também. Oswald disse: Isso é como se fosse selvagem, uma coisa estranha, que veio do mato, e o Bopp concordou. Tarsila do Amaral



A abstração figurativa refere-se ao uso de representações que evocam significados em um jogo estético não-alienado inteiramente a realidade (ver o quadro acima). Trata-se da capacidade de transmitir emoções, ideias e narrativas por meio de metáforas e associações imagéticas. As imagens figurativas não apenas retratam objetos ou cenas do mundo real, mas também provocam interpretações pessoais e coletivas, enriquecendo a comunicação, seu nível de abstração, de interpretação e de recepção.

Esse aspecto é fundamental em diversas formas de arte e mídias digitais, onde as imagens não apenas dão pistas da realidade (o mundo aqui fora), mas dizem dos contextos, visões e emoções do próprio criador (o mundo aqui dentro). Neste nível, o girassol não encontra compromisso com o real, apenas, multiplicando assim suas formas de expressão sem deixar de ser percebido. A imagem encontra então compromisso com as abstrações e visões de um mundo antes impossível.

Será importante perceber que, neste nível, dentro de um sistema de audiência ativo, a representação dada pela pintura ou expressão plástica visual pode ser direcionada pelo algoritmo ainda com novas possibilidades, como:

a. ao apresentar o labor artístico do processo (sua confecção pode ser percebido como elemento de validação superior ou igual a obra final);  b. ao apresentar um contexto ou cenário com potencialidades imersivas de interação a causa ou linguagem (o desenho de um girassol pintado por crianças dentro de um contexto sensível, por exemplo); c. ao se apresentar como simulacro ou referência a obra, artista ou escola estética já reconhecida e validada.

De certa forma, estes pontos podem ser contemplados em outros níveis, mas encontrará maior potência aqui, entre o real e a total abstração, uma vez que o seu principal objetivo não está na construção de uma percepção do real, apenas, mas nas aliterações, fantasias e experiências que o rodeiam e se somam.



Wassily Kandinsky. Small Worlds I, 1922







TERCEIRO NÍVEL ︎︎︎ SIMBOLISMO REFERENCIAL


(...) Eu não estava querendo que meus sonhos interpretassem minha vida, mas antes que minha vida interpretasse meus sonhos. Susan Sontag


Este nível se relaciona a uma maneira de entender a realidade que transcende a simples  mimetização. Abrange formas artísticas, as quais podem soar como complexas para a máquina (enquanto criação original), não preocupada com a retratação direta de objetos ou figuras reconhecíveis - embora ainda possa existir aqui um nível de desafio sobre a representação de uma ideia ao redor do que aquilo possa significar.

Aqui, o girassol surge dentro de uma abordagem que confronta a forma tradicional de ver e interpretar o mundo, enfatizando as experiências subjetivas nas relações dinâmicas que formam a realidade. Será ele, então, uma não-representação do real, muito mais próximo, portanto, de um ensaio sobre a psiquê humana e seus anseios.

Podemos tomar como exemplo o trabalho de Vasily Kandinsky e Piet Mondrian para dar forma a este nível de abstração. Kandinsky, por exemplo, com suas composições vibrantes e dinâmicas, utiliza cores e formas para evocar emoções e estados de espírito, transcendendo a necessidade de representar objetos visíveis, propondo uma nova linguagem visual. Piet Mondrian, com sua abordagem mais geométrica e rigorosa, revela a ordem e a harmonia através de linhas e planos de cores primárias, apontando para a abstração pura como um meio de alcançar uma verdade estética.

Esses artistas exemplificam como o simbolismo referencial nos propõe uma nova forma de interação com a obra, e com a produção de imagens, onde o significado emerge das relações e experiências que criamos com o que está diante de nós, em um diálogo contínuo entre a arte e a psique humana. Assim, o girassol, longe de ser apenas uma representação botânica, se torna aqui um símbolo carregado de significados que invita à exploração das complexidades da nossa existência e a busca por uma compreensão mais profunda da realidade. Mas perceba: somos nós, seres sensíveis, que atribuímos valores e percepções sobre a sua imagem.


George Byrne. Pink Cadillac e Liquor Store, 2024


A nova série de colagens fotográficas do fotógrafo de Los Angeles, Synthetica, nos leva a questionar o que realmente faz parte de suas cenas urbanas. Ellis Tree / Its Nice That






ÂNGULO DE ABSTRAÇÃO 


Ao abordar o girassol como exemplo de estudo, exploramos três camadas distintas de interpretação - a realidade representativa, a abstração figurativa e o simbolismo referencial - que revelam a complexidade e o potencial da produção imagética contemporânea. Cada nível não apenas amplia a compreensão estética, mas também reflete a dinâmica entre a criatividade humana e as capacidades artificiais, questionando a autenticidade e a profundidade da experiência visual. Sobretudo, quando observamos o ângulo de abstração e borramos as linhas que separam os níveis, dando margem a novos signos, experimentos e possibilidades. 



Ângulo de abstração. Não está claro se o ângulo de abstração exigirá maior carga de comandos e contextos para o algoritmo. A Realidade Representativa exige maior critério de fidelidade ao mundo (e será mais facilmente percebido em suas falhas). Por outro lado, a ângulação parece indicar maior subjetividade, implicando em uma maior carga humana para sua interpretação.




Neste contexto, é vital reconhecer que a artificialidade reside no esvaziamento do sentido das imagens e não na técnica utilizada. Processos e sistemas analógicos também não garantem resultados repletos de significação, evidenciando que o verdadeiro impacto da imagem está na sua capacidade de evocar experiência e reflexão. Sobre isso, precisamos entender o que estrutura, na verdade, a ideia de artificialidade (nosso próximo ensaio), afim de entender o que então percebemos no contexto das imagens.

Assim, ao navegarmos neste território envolto em inovação tecnológica, devemos considerar como essas interações moldarão não apenas a produção artística, mas também a nossa própria compreensão da realidade, sublinhando a importância de atribuir valor e significado às imagens que nos cercam. Um ato humano.




A compreensão dos parâmetros que dão estrutura à artificialidade será objeto de discussão na segunda parte deste ensaio. As seguintes obras foram consultadas: 

The Creative Act - Rick Rubin

A Galáxia de Gutemberg - Marshall McLuhan

Art and Visual Perception - Rudolf Arnheim

The Beuty of Everyday Things - Soetsu Yanag

Dicionário de Filosofia - Nicola Abbagnan

O Que Resta: Arte e Crítica de Arte - Lorenzo Mamm

On Photography - Susan Sontag

Elementos de Semiótica Tensiva - Claude Zilberg






Continue lendo ︎︎︎ Gustavo Piqueira / Entrevista
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